Quando o desejo pelo outro se
transforma num sentimento de posse ao ponto de alguém desconfiar, sem
fundamento algum, da palavra do outro, podemos dizer, dependendo do nível de
intensidade em que esse comportamento se manifesta que se instalou aqui o que
denominamos de ciúme patológico. E é
exatamente por isso que o psiquiatra
Mourão Cavalcante, em seu livro Ciúme Patológico, afirma que “o ciumento vive as exigências de um
amor possessivo”. E mais adiante, conceitua que o ciúme patológico “é o medo de perder o objeto amado, o
desejo de conservar a coisa que só queremos para nós. Tende ao isolamento, à
defesa”.
O ciúme patológico se enquadra
nos transtornos afetivos graves. Nele a pessoa julga que o outro a pertence.
Faz de tudo para tê-la em seu poder. Idealiza uma imagem do ser venerado que,
ao não corresponder com suas expectativas, faz disparar um sinal de alerta que
desencadeia um sentimento de desconfiança. É com base nisso que surgirão ideias
fantasiosas criadas pela imaginação do ciumento que o farão acusar o seu objeto
de desejo dos mais absurdos casos de traição. O que gera o ciúme é, portanto, a
possibilidade de perder a pessoa amada. Quando o ciumento se vê ameaçado com a hipótese
dele ter seu objeto “tomado” de suas mãos, teremos a ocorrência de uma possível
crise. Ao perceber que está perdendo o controle da situação, manifestar-se-ão
as mais inimagináveis atitudes. O ciumento patológico comportar-se-á de modo a
agir em sua defesa, pois a leitura que ele faz da situação é a de que está sob
ameaça.
Um exemplo que se tornou público
foi o de Eloá e Lindemberg que matou a namorada depois de sentir-se rejeitado
por ela. Inconformado pelo término do romance, ele cometeu o crime que todos
puderam assistir pela televisão.
Na novela Salve Jorge, posso
apontar também como exemplos os papéis vividos pelos personagens de Natália do
Valle e Caco Ciocler. Ambos são ciumentos patológicos. Retratam personagens
inseguros, carentes, invasivos, com baixa auto-estima, descontrolados emocionalmente,
possessivos. Chegam a ser inconvenientes, pois invadem a vida do outro de forma
a não dar espaço para que este viva a sua individualidade. Eles sugam o “parceiro”
de tal modo que a sensação que se tem é que não resta espaço para que este
último viva a sua vida com liberdade e privacidade. Fazem um “cerco” para que o
alvo de seu “amor” doentio não escape um só momento deles e assim, o “parceiro”
tem uma sensação de sufocamento.
Na mente do ciumento paira uma
ideia de que está sendo traído ou na iminência de sofrer uma traição. Para
evitar isto, ele recorrerá a tudo que for preciso: faz chantagens (dizer, por
exemplo, que vai tirar a própria vida), proíbe o objeto amado de sair de casa
(de forma que este se torna um prisioneiro), impede que o outro exerça um
trabalho fora de casa, obstaculiza as amizades do “parceiro”, controla as
ligações do celular do seu objeto de “amor”, segue a pessoa de carro para
certificar-se de sua desconfiança, enfim, faz um verdadeiro “cerco” como já foi
dito anteriormente.
É exatamente desta maneira que se
comportam os personagens vividos pelos atores citados acima. No caso da atriz
Natália do Valle, seu papel retrata uma mulher extremamente carente e que
procura a todo instante fazer com que seu namorado (o comandante do Exército)
firme um compromisso mais sério, gerando nela um sentimento de “segurança”,
pois assim, ela tem a garantia que ele será dela. Já no caso do ator Caco Ciocler,
em seu papel, representa um marido “exageradamente apaixonado” por sua esposa, ciumento
ao ponto de proibir que a mesma seguisse a carreira de modelo, impossibilitando
assim, em sua fantasia, que ela estivesse sob os olhares de outros homens que
poderiam tomá-la de seu poder.
Faz-se necessário comentar que o
ciúme patológico é algo desenvolvido ao longo da existência do sujeito. Não é
um transtorno que surge repentinamente. A infância e a adolescência de um ciumento
são marcadas por “uma experiência
dolorosa de relacionamento conjugal entre os pais, de vivências extremamente
traumatizantes na perspectiva do relacionamento familiar”. No relacionamento
dos seus pais “predominava a insegurança,
a traição e atrito, as desconfianças, enfim, um ambiente tenso e nocivo. Na
fase adulta, essa vivência irá determinar um processo de insegurança”, segundo
o Dr. Mourão Cavalcante em seu livro
já mencionado.
Apesar de não parecer, a pessoa
acometida por este transtorno sofre muito. Ela não consegue ser feliz. Seus
relacionamentos ficam prejudicados. Em casos mais graves, manifestam-se ideias
delirantes. O delírio é algo que abala o sistema de ideias, de julgamentos e de
crenças do sujeito. Esse abalo acaba por desencadear prejuízos nas relações do
indivíduo com o mundo, fazendo com ele vivencie um isolamento de tudo e de
todos.
Esse é, portanto, mais um dos
vários transtornos da saúde mental que gera sofrimento tanto na pessoa
diagnosticada como ciumenta patológica quanto no seu entorno: parentes, amigos,
colegas de trabalho, enfim em todos que fazem parte do seu ciclo de
relacionamento.
É um tema delicado e que merece
nossa atenção. Por esta razão, resolvi escrever este artigo, pois a sociedade
precisa ter ao menos uma noção do que é o ciúme patológico e assim, ter
condições de compreender comportamentos que, num primeiro momento, consideramos
absurdos, gerando até mesmo revolta e sede de justiça, dependendo do caso. Com
um conhecimento básico do assunto, teremos mais capacidade de analisarmos as
diversas situações que nos atingem.
Até nosso próximo texto.
Thatianny Moreira