De lá para cá, algumas vitórias
foram sendo conquistadas. Uma delas, o aumento na quantidade de consultas
liberadas por ano que, inicialmente, eram apenas de doze.
Mas, infelizmente, ainda
enfrentamos (os psicólogos) alguns obstáculos para exercer com plenitude o
exercício da nossa profissão. A formalidade do encaminhamento é um deles. Para
chegar ao nosso consultório, o paciente tem que antes ir a um médico
(geralmente, psiquiatra ou clinico geral). Este então realizará uma avaliação
para verificar se há demanda. Caso haja, o médico fará uma solicitação por
escrito.
No meu ponto de vista, tal
procedimento dificulta a procura do tratamento psicológico por parte do cliente
que, muitas vezes, disponibiliza de pouco tempo em virtude de fatores diversos,
tais como a alta jornada de trabalho e a necessidade de deslocar-se para seus compromissos por meio dos transportes públicos. Ademais, a
resistência é um fator sui generis (que é inerente) ao processo de busca de um
psicólogo. O sujeito, ao constatar que precisa fazer psicoterapia, vê-se correndo
o risco de ser marginalizado pela sociedade que, por falta de esclarecimento,
interpreta tal pessoa como “louca”. E assim, um longo tempo de intervalo se
instala entre a consulta com o médico e o começo da psicoterapia.
Mais um ingrediente se acrescenta
a esta imensa montanha de obstáculos para que os cuidados necessários à
manutenção da saúde mental possam prosseguir. Isto ocorre mesmo depois que foi
dado início ao tratamento com o profissional da Psicologia: surgem a exigência,
por parte dos planos de saúde, de identificar o CID- Código Internacional de
Doenças- do paciente. Tal numeração faz
parte de um manual de classificação nosológica (sistematização das enfermidades
em blocos de transtornos de acordo com a sintomatologia). A partir daqui, o profissional
da Psicologia se vê diante da obrigação de colocar seu paciente, dentro de
compartimentos, levando em consideração os sintomas apresentados pelo paciente
em sua primeira consulta.
É exatamente na primeira
oportunidade que o psicólogo tem, diante da pessoa, que ele definirá seu
diagnóstico. Um ato de alto risco. Alto risco porque, julgo ser muito
precipitado, baseando-me apenas em um único encontro, decidir em qual código o
paciente se encaixa. Penso que tal procedimento privilegia não o ser humano em
si, mas sim a doença que ele traz consigo, e, além disto, arriscamo-nos a expor
a intimidade da pessoa. Isto sem mencionar a ansiedade que podemos despertar no
paciente a partir do instante que ele tem, em suas mãos, uma classificação que,
muitas vezes, não tem a mínima compreensão do que é.
Minha atuação em consultório é
pautada com base na fundamentação
teórica da Gestalt-Terapia (cujo conceito já tive a oportunidade de explicar em
outro texto aos leitores do meu blog). Tal teoria não tem como foco do processo
a doença, mas sim o “doente”. Não privilegiamos o sintoma, mas, acima de
qualquer coisa, o ser humano que sofre por causa do sintoma.
Da mesma forma que o processo de
humanização já chegou aos hospitais e hoje fundamenta a relação médico-paciente,
gerando uma maneira de tratar os doentes não como meros números que preenchem
um leito, mas sim como seres humanos que têm sentimentos, acredito ser de
extrema urgência uma transformação na maneira de lidar com algumas questões no
âmbito dos procedimentos de liberação das consultas psicológicas. Tal ótica,
descrita nos parágrafos anteriores, está ultrapassada e é incompatível com a
dignidade humana, bem como com a evolução científica. Portanto, vamos lutar
para que o panorama atual se modifique!
Um abraço
Thatianny Moreira