Para uma melhor compreensão do
contexto atual, façamos uma breve retrospectiva histórica de como o público
infantil era tratado. Isto nos dará mais condições para entendermos a questão
dos limites na relação pais e filhos.
Nas gerações antigas, no período
da Idade Média, para sermos mais específicos, as crianças eram como uma espécie
de adulto em miniatura. Adultos não crescidos, em se tratando de estatura,
digamos assim. Em decorrência disso, às crianças não era proporcionado nenhum
tipo de cuidado especial; como, por exemplo, no que se refere à alimentação. Os
pequenos podiam até mesmo presenciar uma conversa entre adultos, já que eram
percebidos como “adultos em tamanho reduzido”.
Nas escolas, não havia separação
de turmas por faixa etária. A sala era composta por crianças das mais variadas
idades. Não existia essa divisão em etapas: maternal, jardim, alfabetização.
Simultaneamente a essa visão no contexto educacional, também tínhamos uma não diferenciação na área da saúde. Exatamente por esta razão, o índice de mortalidade infantil era alto. Falar em saúde infantil é assunto dos tempos modernos.
No aspecto social e na dinâmica
familiar, inexistia o envolvimento afetivo entre pais e filhos. Demonstrações
de carinho não eram incentivadas como hoje são pela Psicologia, Pediatria e
Pedagogia. A ideia de desenvolvimento infantil nem se cogitava. As tais etapas
do desenvolvimento humano, estudadas por Piaget (importante teórico da psicologia
do desenvolvimento humano), eram temas que só surgiriam mais adiante.
As meninas, em virtude desta ausência de compreensão do desenvolvimento humano, logo eram treinadas para os afazeres domésticos e seguiam o que era destinado ao sexo feminino daquela época, enquanto que aos meninos era ensinado algum ofício para o mais rapidamente possível darem sequência aos negócios dos seus pais.
Mas, como tudo evolui, as coisas foram
mudando e surgiu a Ciência que estudaria o comportamento e a mente humana: a
Psicologia. Ao lado da Psicologia, também tivemos como uma grande contribuinte
para a compreensão do desenvolvimento do ser humano a Pedagogia. E assim, foram
aparecendo os conceitos de frustração, trauma, autoridade, limites, disciplina,
etc.
Todos esses acontecimentos influenciaram
na mudança de atitude dos pais e, consequentemente, na modificação da estrutura
da família e da dinâmica no relacionamento pais e filhos. Isto se nos
referirmos a uma porção menor da imensa estrutura que é o mundo, pois, é claro,
que tivemos repercussões também na maneira como passou a ser pensada a Educação
nas escolas, a Saúde nos hospitais, etc.
O fato é que os pais precisaram
aderir a essa nova maneira de pensar e agir. Como toda mudança, inicialmente,
gera conflitos, aqui também não foi diferente. E assim, os pais tiveram que
adotar novos procedimentos, mudar a forma de se comunicar e se relacionar,
dentre outras mudanças. O problema é que para assimilarmos tudo isso,
precisamos de tempo. Tempo para que os devidos ajustes possam ser realizados e
tempo para se adaptar a esse novo cenário. Era natural que a mente dos pais
sofresse certo conflito: Dou palmada ou não dou? Isso traumatiza ou não? Devo
ser mais rígido ou mais liberal? Dentre outros vários questionamentos.
Em meio a esse turbilhão de
perguntas, o que é inegável é que que todo ser humano precisa de limites para
viver em sociedade. E como os pais devem estabelece-los? Aqui, enumero algumas
dicas:
1- Não
transforme o “dizer sim” em hábito: se o outro se habitua a ouvir “sim”, terá
dificuldades para quando tiver que ouvir um “não”;
2- Não
demonstre dúvida/insegurança quando se posicionar diante de seu filho. Mantenha
seu argumento inicial, pois se ele perceber que você não está seguro, ele vai
testar você. Tânia Zagury, autora do livro “Sem padecer no paraíso”, comenta: “sentir
limites é para a criança uma questão de segurança- uma necessidade básica”;
3- Troquem
idéias com pais mais experientes;
4- Tenha
sintonia entre você seu parceiro(a) no que se refere à forma de pensar sobre "como educar", ou seja, procurem ter pensamentos harmônicos e não
divergentes;
5- Dialoguem
sempre com seus filhos, pois os ensinamentos são construídos. Os ensinamentos
não nascem da noite para o dia;
6- Não
encarem os conflitos surgidos na dinâmica familiar sob um ângulo negativo.
Vejam a outra face dos conflitos: eles são uma oportunidade de repensar
valores, de reconsiderar idéias;
7- Assuma
a responsabilidade de “dar ordens”, pois ser pai não é ficar somente com a
parte prazerosa do processo educacional. Você tem que definir horários para
dormir, para comer, para estudar, etc.
Bom, ficaremos por aqui. Mais
adiante, abordarei com vocês as razões para que os limites sejam estabelecidos.
Um abraçoThatianny Moreira